Anos 60: a década da virada
por Patricia Paladino
Como as mulheres romperam conceitos e mudaram o rumo da nossa história

Onde tudo começou

E viva os anos 60! Sem o que aconteceu na década de 1960, certamente, não estaríamos aqui. Ou ainda estaríamos lendo o Jornal das Moças e nos deliciando com nosso papel de mãe-esposa-rainha-do-lar. Sem a revolução sexual, sem a pílula anticoncepcional, sem a abertura da universidade para mulheres.

Entretanto, as mudanças não ocorrem assim: pá-pum. Num dia era de um jeito, uma semana depois tudo está diferente. O início da década de 1960 mantinha padrões estabelecidos nas décadas passadas. A “boa mulher” era a boa esposa, a boa dona-de-casa. Havia a submissão ao casamento, a extrema preocupação com a “reputação” – o tabu da virgindade dividia as moças entre as “de família” e as “de fora”. A sensibilidade era a principal característica feminina.

Coube a uma mulher - que falava para um grande público feminino - ser a porta-voz de que um novo tempo estava chegando. "O surgimento da revista Cláudia, em 1961, pode ser considerado um ponto importante nesse início de mudança de comportamento", conta a sexóloga e psicanalista Regina Navarro Lins. Apesar de seguir um padrão editorial ainda conservador, a revista abriu espaço para a psicóloga e jornalista Carmen da Silva, que assinava uma revolucionária coluna A arte de ser mulher.

"Carmen questionava se a mulher não podia ter algum interesse que não fosse voltado para o lar. Por que não podia pensar um pouco nela mesma e não apenas em seu marido, em sua casa, nos filhos?", explica Regina. Carmen da Silva escreveu sua coluna durante 22 anos (de 1963 a 1984) e antecipou muitos dos assuntos que se tornariam a fonte do novo pensamento feminino. O uso da pílula anticoncepcional, a possibilidade do divórcio e a inclusão da mulher no mercado de trabalho foram alguns dos assuntos abordados por ela. Carmen defendia que a mulher era um ser total. Abriu as portas da casa para que a mulher percebesse que o mundo era vasto e que ela era um ser participante deste mundo.

Paralelamente, o mundo vivia uma revolução, que começou a se delinear após a 2ª Guerra Mundial, em 1945, nos Estados Unidos. Com a ameaça da bomba atômica e de uma possível guerra nuclear, os jovens começaram a questionar os valores da geração anterior. "Foi o primeiro choque de gerações que realmente desencadeou uma nova forma de pensamento e de relacionamento", explica Regina. Esta contestação, aliada a movimentos culturais e sociais como os beatniks (movimento literário que, em resumo, celebrava a não-conformidade e a espontaneidade criativa e que tinha entre seus expoentes Jack Kerouac, Allen Ginsberg e William S. Burroughs), a contracultura do movimento hippie e seus ideais de "Faça amor, não faça a guerra" apregoando o amor livre e a paz no mundo e, claro, o movimento feminista, foram marcos decisivos desta década tão fecunda de movimentos em favor da liberdade.

"O feminismo brigou por todo o tipo de liberdade e pela liberdade sexual também. Até então, a questão da virgindade era primordial para o desempenho do papel feminino. A quebra da idéia de virgindade como valor acabou nos anos 60", explica a antropóloga Mirian Goldenberg, professora do Departamento de Antropologia Cultural e do Programa de Pós-graduação em Sociologia e Antropologia do Instituto de Filosofia e Ciências Sociais da UFRJ. Para ela, o questionamento provocado por estes movimentos sociais foram essenciais na ruptura com os antigos modelos estabelecidos. "No Brasil isso chegou muito através do Tropicalismo, um movimento que também pregava a igualdade e a liberdade. Com o movimento hippie vieram a defesa do sexo livre, da experimentação em todos os sentidos. As pessoas se sentiam livres para pensar sobre liberdade, em seu mais amplo espectro", diz Mirian.

Livres para pensar sobre liberdade - este é um ponto essencial. Libertar-se de amarras sociais, começar a quebrar os muros que separavam as mulheres de suas escolhas. Um fator predominante neste período de mudança de comportamento foi o posicionamento da mulher no mercado de trabalho. Até os anos 60, a mulher que trabalhava fora - quando trabalhava - tinha profissões que eram quase uma extensão do seu papel na família: o de educadoras, o de cuidar do outro.

"Durante os anos 60 e 70 houve a expansão do ensino universitário e com isso as mulheres puderam entrar para a universidade, passaram a pensar a vida profissional de uma forma diferente das mulheres das décadas passadas. Antes, elas faziam o curso Normal para serem professoras, ou um curso técnico de enfermagem. A partir da universidade, as mulheres ampliaram seu campo de atuação no mercado de trabalho", atesta Mirian Goldenberg.

Para a psicanalista e sexóloga Regina Navarro Lins, o golpe fatal no sistema de domínio masculino foi a chegada da pílula anticoncepcional. Com um método contraceptivo eficaz (e embasadas por todo o processo de evolução do pensamento que vinha se instaurando), a mulher passou a ter o direito de escolher quantos filhos queria ter - e, principalmente, quando tê-los. "Foi um caminho sem volta. Porque, por exemplo, não adiantava a mulher entrar para a universidade se não houvesse um anticonceptivo eficaz que lhe desse opção de escolha ou mais tempo para decidir quando ter seus filhos", atesta Regina.

Esta possibilidade de escolha fez com que mesmo mulheres que não vivenciaram diretamente a liberdade adquirida, tivessem isso como um valor. A geração de mulheres de 20 anos na década de 60 já criou seus filhos - e, principalmente, suas filhas - de maneira diferente das anteriores: de forma mais próxima, mas amiga, com menos violência.

Ana Morais, 72 anos, acompanhou, repleta de dúvidas, as transformações do mundo nesta época. Era considerada "avançada" para os padrões familiares, mas mantinha-se "careta" diante de si mesma. Dividia-se entre a casa dos pais e o apartamento do irmão estilista, em Copacabana. Estudava, trabalhava, divertia-se com uma enorme "turma da praia", viajava com o irmãos e os amigos. Ao mesmo tempo, mantinha-se fiel aos padrões de comportamento: era virgem, raramente bebia em público, não fumava, namorava apenas na sala da casa dos pais. Vivia, ela mesma, um conflito interno entre o que era e o que não tinha coragem de ser.

"Eu via as mulheres à minha volta, incluindo eu mesma, ávidas por romper padrões. E ao mesmo tempo, com toda a culpa cristã incutida por nossas mães, com pavor de fazer isso", conta Ana, que casou tarde para os padrões da época: em 1962, aos 25 anos. E, mesmo assim, só após um "ultimato" do noivo. Ou casa ou nos separamos. "Eu tinha dúvidas se era isso o que eu queria naquele momento. Eu amava muito meu noivo, queria ficar com ele. Sabia que existiam opções ao casamento tradicional, mas nem tive coragem de propor", conta Ana, que na época trabalhava como secretária executiva em uma grande empresa. "Eu ganhava meu dinheiro. Mas ficava entre minha vida e o amor que eu sentia por ele. Então resolvi casar."

Estas dúvidas - "minha liberdade ou o amor?"; "mantenho a vida para a qual fui criada ou rompo com tudo?" ; "eu ou nós?" - permeavam as mulheres que viviam este turbulento período de mudanças. Ana casou, três anos mais tarde teve sua primeira filha; cinco anos e meio depois, um menino. E parou de trabalhar. Virou, como sempre lhe incomodou dizer, "dona-de-casa". Entretanto, a idéia de liberdade - que não pôde vivenciar na prática - ficou nela como um conceito, que foi passado para a filha, Inês, hoje com 44 anos. "Eu a criei com os valores da liberdade que eu não tive. Não que eu culpe o casamento ou meu marido, com quem mantive uma relação de amor e compreensão mútua maravilhosa, até ele falecer, em 1995. Mas passei para minha filha valores como segurança, ímpeto, destemor. Dei a ela a capacidade de escolher a vida que quiser ter, sem medo."


A Leila Diniz que há em nós

Individualidade, liberdade, prazer. Ninguém incorporou esses ideais como Leila Diniz. E se há alguém que pode falar sobre Leila, é a antropóloga Mirian Goldenberg, autora do livro Toda mulher é meio Leila Diniz, que ganhou agora uma edição de bolso, bem mais acessível (R$ 14,90, pelas Edições BestBolso). É leitura obrigatória para nós, mulheres do século XXI, que pretendemos entender como chegamos até aqui.

No livro, mais do que uma biografia (o que, na verdade, não é), Mirian descreve a singularidade e a contemporaneidade do pensamento de Leila. "Eu não conheço quem simbolizou a liberdade feminina como ela. Até hoje", diz Mirian. "Leila Diniz passou a ser um ícone dessa liberdade. Mesmo quem era absolutamente contra sua postura, viu que existia um outro jeito de ser mulher, diferente de tudo o que chegava a elas até então."

Mais do que romper tabus - como exibir, orgulhosamente, sua barriga de grávida-solteira usando um biquíni na praia, ou falar palavrões como quem pontua uma frase, na antológica e polêmica entrevista dada ao Pasquim -, o mais importante em Leila é perceber que ela não foi o que foi porque tinha propósitos feministas ou por levantar qualquer outra bandeira. Leila Diniz simplesmente era assim. Absurdamente feliz, tremendamente livre, completamente aberta para o mundo. Livre. Simples assim.

Se tivermos este parâmetro - o da liberdade como sinônimo de individualidade e, no fim das contas, de felicidade - podemos empreender o caminho rompendo nossas próprias barreiras e buscando o equilíbrio. Como começaram a fazer as mulheres que vieram depois de Leila Diniz - as mulheres dos anos 1970 e 80.

 

*A seguir: "A nova mulher" - Na terceira matéria da série "A verdadeira revolução" , caem as barreiras entre as gerações de mulheres de 20, 30 e 40 anos. Veja como se dá a aproximação de pensamento e costumes entre as mães e filhas da atualidade. É o fim de tabus como a virgindade e a decisão de não ter filhos. As identidades são baseadas em escolhas pessoais e não em estereótipos ou conceitos pré-definidos. A mulher toma as rédeas da própria vida, vai à luta. E caminha de cabeça erguida em busca do equilíbrio e da felicidade.

 
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